Hoje começou o meu Outono.
Senti aquele frio que me lembra mantinhas de lã, a chávena de chá e as preguiçosas tardes com carinhos.
A caminho de casa senti as folhas secas, que já se amontoam no chão, a estalarem debaixo dos pés.
O cheiro das castanhas a assar no carrinho-barco. O mesmo senhor velho de mãos enegrecidas pelo fumo e pelas quentes e boas.
Volta a luz coada e doce ao entardecer.
As cores quentes, a chegada do frio e da chuva alegram-me os sentidos.
Como uma árvore deixo cair as minhas folhas e fico a contemplar a natureza das coisas. Largo sementes a germinar em novos caminhos.
Abro os braços como ramos e tremo de frio.
Enterro os pés na terra e absorvo a energia do sol.
Sonho-me árvore, de tronco largo, que quase toca as nuvens como se pudesse ser um desses seres fantásticos.
Começa a anoitecer. A luz a baixar no horizonte e a humidade, fazem-me viajar...
Os pés desenterram-se.
Os braços encurtam.
Oiço um cântico que vem de longe. Todas as sementes deitadas à terra chamam por mim.
Toda a energia absorvida transforma-se num novo desejo.
Partir.
Uma dor cresce. Uma dor crava-se nas minhas costas.
Dispo-me de roupa. Tento ver que se passa na minha parte de trás.
Uma pena!?!
Estou a transformar-me?
Pássaro ou anjo?
Só voar?
Proteger tudo ao meu redor?
Combater?
Partir, quero partir.